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Uma necropsia realizada pelo Instituto Médico Legal (IML) de Marília, com emissão de declaração de óbito de um detento da Penitenciária de Gália, morto em outubro de 2024, é o fio da meada de uma investigação que atinge a irmã do falecido e mira, principalmente, uma estudante de medicina de 25 anos, na cidade de Taubaté. A morte do preso, vítima de estrangulamento, não deveria ter nenhuma relação com as duas investigadas, que vivem a mais de 500 quilômetros de distância. Mas, a Polícia Civil já descobriu que a irmã dele pode ter usado informações do óbito para dar origem a uma morte que nunca aconteceu em Taubaté. Uma das testemunhas e vítima do caso é uma médica legista de Marília. A profissional atestou a morte do detento em sua rotina de trabalho e nunca imaginou que seu nome, registro de CRM (Conselho Regional de Medicina) e até a mesma numeração de Declaração de Óbito, documento emitido após a perícia, poderiam ser usadas indevidamente em Taubaté.
O caso veio à tona quando a profissional foi procurada pela Vigilância Epidemiológica daquele município. O órgão da Saúde buscava detalhar circunstâncias para notificação da morte de uma estudante de 25 anos, no dia 15 de janeiro. Mas a médica mariliense, que não trabalha e nem atesta nada em Taubaté, não reconheceu a assinatura e procurou a polícia de Marília. O caso ganhou registro de “falsidade ideológica”, tendo como averiguada a suposta estudante morta. Comunicada sobre o caso, a Polícia Civil de Taubaté descobriu que a declaração falsa já tinha dado origem a uma certidão de óbito no cartório local. O documento, que na época era considerado autêntico, foi lavrado a pedido de uma mulher de 24 anos, irmã do homem morto em Gália. A certidão aponta neoplasia (câncer) e parada cardiorrespiratória. Mas o hospital onde supostamente o óbito da estudante teria ocorrido no dia 15 de janeiro, já informou à polícia que a jovem mencionada não deu entrada na unidade, tampouco morreu lá. A reportagem apurou que um pedido de sepultamento chegou a ser feito após a declaração de óbito, mas a solicitação foi cancelada pela própria solicitante. Mesmo sem enterro, na certidão, lavrada no dia 20 de janeiro, consta que o corpo foi sepultado no Cemitério Municipal de Taubaté. A falsificação de documento público é um crime previsto no artigo 299 do Código Penal e pode resultar em pena de reclusão de um a cinco anos, além de multa. Desde a publicação da notícia sobre o uso dos dados da profissional mariliense, o Marília Notícia começou a apurar a motivação, que já apontava para um curioso óbito falso na cidade do Vale do Ribeira, famosa, entre outros casos, pela “grávida de Taubaté”.
Com exclusividade, a reportagem do MN apurou a existência de inquérito, instaurado dois dias antes da falsa morte, para investigar o crime de furto que teria sido cometido pela estudante. Um casal residente em Taubaté procurou a polícia para denunciar a amiga de sua filha. A jovem universitária teria se aproveitado da amizade de longa data e prometido aos idosos que os ajudaria em relação a aposentadorias. A denúncia aponta que eles cederam documentos e foram submetidos a fotos e reconhecimento facial, com abertura de contas em bancos digitais, além de transferências PIX. Somente em desvios já descobertos, fora empréstimos e outras operações, foram furtados pelo menos R$ 44 mil do casal. No final de janeiro, uma irmã da estudante apresentou à Polícia Civil de Taubaté a certidão de óbito, na qual consta o nome da legista mariliense, portanto falsa, visando a extinção do inquérito por furto. O delegado responsável pelo caso já ouviu o casal e deve ouvir ainda a filha das vítimas, mas ainda não se manifestou sobre a certidão de óbito anexada. O inquérito contra a estudante suspeita falsidade ideológica e furto prossegue em Taubaté e poderá intimar outras pessoas, como a irmã da estudante, para confrontar as informações falsas contidas na certidão de óbito.